A primeira onda do feminismo. Desnudando o poder.


“Os pretos são selvagens, estúpidos, analfabetos. Havia um mito do negro que era preciso, antes de mais nada, demolir. Não estávamos mais no tempo em que as pessoas se impressionavam diante de um padre preto. Tínhamos médicos, professores, estadistas... Sim, mas em todos esses casos algo de insólito persistia. ‘Nós temos um professor de história senegalês. Ele é muito inteligente... Nosso médico é um negro. Ele é muito cordial’. (FANON, 2008, p. 109)”,falando de Angela Davis

Angela Davis é umas das mais importantes feministas contemporâneas. Sua potente história de luta política encarnou uma geração de reivindicações por humanidade, igualdade e liberdade não só para o povo negro, mas para todas as parcelas oprimidas da sociedade. O sentido de suas reflexões aliaram, como ninguém, teoria e prática, em uma leitura da história, da sociedade e da política, que estiveram e ainda estão fundamentalmente conectadas com um novo devir, uma transformação profunda da realidade e, portanto, seu pensamento entra no rol das teorias críticas, do pensamento produzido desde a subalternidade e de profundo valor para um outro mundo possível.

Em 2016, a obra “Mulheres, raça e classe”, escrita por Davis em 1981, ganhou uma edição brasileira, lançada pela Editora Boitempo.

O trabalho de Davis nos inspira a recontar a história da luta das mulheres, a partir de um olhar que inclua o exame das contradições dos contextos políticos, as estratégias perseguidas pelas mulheres organizadas e de modo interseccional, compreendendo historicamente como gênero, raça e classe foram se configurando para manutenção das opressões e para as possibilidades de emancipação. Nos resta a tarefa de resgatar as vozes que historicamente se tornaram invisíveis, mas que contribuíram decisivamente para o feminismo latino-americano. Trabalhadoras, mulheres do campo e das cidades, operárias, indígenas, mulheres afrolatinas e caribenhas, que, como suas irmãs negras estadunidenses, produziram, na sua prática, uma pedagogia da libertação.

.A recusa a um olhar ortodoxo mantém Davis atenta às questões contemporâneas, que abarcam desde a cantora Beyoncé à crise de representatividade. A discussão feita por ela sobre representação foge de dicotomias estéreis e nos auxilia numa nova compreensão. Acredita que representação é importante, sobretudo no que diz respeito à população negra, ainda majoritariamente fora de espaços de poder. No entanto, tal importância não pode significar a incompreensão de seus limites. Para além de simplesmente ocupar espaços, é necessário um real comprometimento em romper com lógicas opressoras. (RIBEIRO apud DAVIS, 2016, p. 13).

Assim, dedicada à tarefa de compreender, para poder, de fato, “romper com lógicas opressoras”, Angela Davis examina questões que permanecem problemáticas, não obstante a distância cronológica que nos separa dos anos quando foram inicialmente tematizadas. Nesse sentido, Davis oferece não apenas um acurado diagnóstico histórico-materialista das opressões antinegras sofridas ao longo de todo o processo de formação dos EUA, como ainda procura valorizar alternativas e práticas de resistência fomentadas nos espaços de aprendizado, solidariedade e luta política, dentro e fora do país. Com esse intuito, o movimento antiescravagista, a campanha pelo sufrágio feminino, os movimentos operários e trabalhistas são apresentados e discutidos com fôlego historiográfico e rigor científico dignos de elogios.

Além disso, ao refletir sobre seus limites e perspectivas concretas, a autora não hesita em discutir questões complexas, as quais muitas vezes excedem o âmbito da ação política propriamente dita, vindo a afetar a esfera privada e mesmo íntima, como no caso do trabalho doméstico, dos direitos sexuais e reprodutivos, e da importância da educação para uma efetiva libertação do ciclo de dominação sistêmica retroalimentada pela reprodução ampliada do capital, em todas as suas formas. Por sinal, conforme o próprio título da obra anuncia, um dos grandes méritos de Mulheres, raça e classe é precisamente colocar em evidência os modos pelos quais as opressões entrelaçadas de gênero e raça, bem como aquelas derivadas da exploração e/ou precarização do trabalho, incidem sobre as subjetividades e os corpos das mulheres negras. Outro aspecto não menos importante para o reconhecimento das inequívocas realizações desse volume é a apresentação das estórias de vida e de luta de tantas e tão notáveis figuras femininas negras ou comprometidas com a causa da justiça social; mulheres fortes, corajosas e altivas, via de regra silenciadas, ignoradas e/ou falsamente reconhecidas pelos documentos da história oficial.

O período pós-abolição e, especialmente o final do século XIX e início do século XX é compreendido por Davis como um momento em que o cruzamento entre racismo e sexismo foi ganhando novas fontes de legitimação. As mulheres negras foram sendo incorporadas ao trabalho remunerado, mas nos postos mais precários. O serviço doméstico mantinha-se como “selo da escravidão” (Davis, 2016:98), que convivia com alta precarização e foi renovando as relações de exploração entre brancas de classe média e as mulheres negras.

Também nesse período, a autora reconheceu que o mito do estuprador negro reforçou uma onda dramática de violência, especialmente por parte de grupos de supremacia branca, que praticavam linchamentos contra homens negros. As mulheres negras se organizaram fortemente contra tal atrocidade, construindo campanhas e entidades e projetando importantes lideranças. A luta pelos direitos sexuais e reprodutivos também foi examinada, especialmente pela ascensão do movimento eugenista e das iniciativas de esterilização em massa das mulheres negras e pobres.

É importante reconhecer, por fim, o esforço de Davis de dar voz e rosto às mulheres que lutaram pela emancipação dos/as trabalhdores/as e do povo negro. Muitas foram as personagens aguerridas da narrativa da autora, que buscou destacar, inclusive, lideranças importantes dos partidos socialistas e comunistas, negras e brancas, que contribuíram decisivamente para que a organização de trabalhadores e trabalhadoras reconhecesse a centralidade da luta antirracista.

É possível destacar algumas das várias contribuições da obra de Angela Davis para a teoria feminista. Ao demonstrar que as mulheres resistiram à escravidão, a partir de diferentes estratégias e ao visibilizar suas formas de luta, passando pelos movimentos abolicionistas, pela luta por educação e também pela resistência à violência sistemática sofrida pela população negra no pós-abolição, Davis reconheceu as mulheres negras como sujeitos sociais e políticos fundamentais para a história da emancipação feminina e do povo negro.

Sua obra contribui para a tarefa ainda indiscutivelmente inacabada de resgatar a história do feminismo como tradição do pensamento político, reconhecendo que o traço interseccional esteve presente desde as suas origens. Ainda que essa trajetória não tenha se dado sem conflitos, a autora demonstra que existiu a preocupação em construir, em diferentes momentos e a partir de diferentes atores e atrizes, estratégias de emancipação que fossem, de fato, completas. Assim, a autora enriqueceu e ampliou a história de luta das mulheres.

O legado da escravidão

Conforme a própria trajetória acadêmica e pessoal da autora deixa patente, a luta pela libertação assoma como um desafio renovado e um compromisso constante em sua vida. “Libertem Angela Davis e todos os prisioneiros políticos” foi, a propósito, o mote da campanha internacional em prol da soltura daquela que, em 1970, fora perseguida e encarcerada durante quase um ano e meio, como uma das dez pessoas mais perigosas do país, segundo o FBI. A liberdade para ela nunca fora, portanto, mera categoria filosófica ou expressão retórica, apenas. Ao contrário de colegas que, em nome de um posicionamento político dito “isento”, exaltam uma liberdade abstrata, vazia e desencarnada, apenas em teoria, Angela Davis busca defender e lutar pelas condições de possibilidade de sua realização concreta, em especial, entre coletividades, de um modo ou de outro, submetidas à maximização de sua condição precária - como mulheres, negros, latinos e pobres. Mediante o recurso a uma certa dialética da libertação, ela parte de uma consistente análise crítica do duradouro legado histórico da escravidão, sobretudo, para a reconfiguração do que se refere como uma nova condição da mulher.

Distinguindo sua abordagem interseccional da de tantos outros historiadores contemporâneos, como Ulrich B. Phillips e Herbert Aptheker, a autora se detém nas especificidades mesmas da situação das “mulheres de cor”, desenvolvendo sua argumentação para além dos propalados estereótipos, que insistem em marcar a sofrida realidade das escravas negras com os estigmas, seja de uma incorrigível “promiscuidade sexual”, seja de seus igualmente questionáveis “pendores matriarcais”. Empenhada em desmontar tal dispositivo de dominação econômica, política e cultural, Davis demonstra, com riqueza de fontes documentais e uma penetrante análise histórica, a relação indelével entre os marcadores sociais de raça e de gênero e a exploração do trabalho escravo, nos Estados Unidos - principalmente na cultura do algodão, do tabaco, da cana-de-açúcar, nas minas de carvão e nas fundições de ferro, mas também nas mais variadas atividades domésticas usualmente realizadas por pessoas negras.

Nesse contexto, ela chama particular atenção à precária condição das mulheres de origem africana: como negras, as escravas eram submetidas a todo tipo de práticas disciplinares e punitivas, por exemplo, com chibatadas, privações e mutilações. Além disso, como mulheres, estavam suscetíveis a estupros e abusos sexuais cotidianos, como parte do expediente de apropriação material e econômica de seus corpos, levada a termo por seus possuidores legais. Como a autora observa, quando era lucrativo explorá-las como se fossem homens, as escravas eram tratadas como se não possuíssem um gênero (genderless), sendo alocadas para realizar os serviços mais árduos, degradantes e penosos. Não obstante, quando elas podiam ser exploradas, punidas e reprimidas de formas cabíveis somente às mulheres, elas permaneciam compulsoriamente reféns de suas funções “naturais” de “fêmeas”.

Assim, quando o tráfico negreiro foi proibido nos Estados Unidos, os grandes latifundiários se empenharam de todas as maneiras para aumentar sua população “doméstica” de trabalhadores compulsórios. Desse modo, as escravas eram forçadas a ter dez, quatorze ou até dezoito filhos, sendo valorizadas - ou sumariamente desvalorizadas - de acordo com sua capacidade reprodutiva. Ainda assim, não eram consideradas “mães”, senão “procriadoras” (breeders) - meros animais de criação, cujo valor de uso podia ser calculado precisamente em termos de sua condição de multiplicar a mão de obra de seus proprietários.

Educação e libertação

No entanto, depois de um quarto de século do fim dessa “peculiar instituição”, um contingente expressivo de mulheres ainda trabalhava em áreas rurais. Aquelas que conseguiram galgar os degraus da casa grande não puderam, contudo, seguir adiante em seu percurso. Davis observa que apenas um número infinitesimal de mulheres negras conseguiu escapar do campo, da cozinha ou da lavanderia. Se, em 1899, 60% da mão de obra negra no estado da Pensilvânia estava empregada em algum tipo de função doméstica, a situação das trabalhadoras negras era ainda mais dramática: nada menos que 91% delas estavam contratadas como serviçais. Aquelas poucas que chegaram a lecionar em escolas acabaram sendo demitidas em função do preconceito e da repressão racial. Chamando atenção para o “modo intrincado” através do qual o racismo opera, a autora destaca o depoimento de algumas empregadoras brancas que acreditavam estar contribuindo para a remissão da imagem pejorativa associada às “mulheres de cor”, reafirmando que eram, de fato, “honestas”, “limpas” e “cuidadosas”. Entretanto, ao sustentar que não apenas aprovavam como ainda preferiam que o trabalho doméstico fosse realizado por pessoas negras, em detrimento das brancas, tais senhoras acabavam reforçando os estereótipos da mulher negra como empregada naturalmente resistente, dócil e confiável. Conforme Davis pondera, “a definição tautológica de pessoas negras como serviçais é, de fato, um dos artifícios essenciais da ideologia racista.” (DAVIS, 2016, p. 102).

Para impedir seu avanço e combater a proliferação de seus discursos, mesmo após o fim oficial do trabalho escravo, pelo menos quatro milhões de pessoas alforriadas já haviam se dado conta de que “o conhecimento torna uma criança inadequada para a escravidão.” (DOUGLASS apud DAVIS, 2016, p. 108

Com frequência, os poderes mistificadores do racismo emanam de sua lógica irracional e confusa. De acordo com a ideologia dominante, a população negra era supostamente incapaz de progressos intelectuais. Afinal, essas pessoas haviam sido propriedade, naturalmente inferiores quando comparadas ao epítome branco da humanidade. Mas, se fossem realmente inferiores em termos biológicos, as pessoas negras nunca teriam manifestado desejo nem capacidade de adquirir conhecimento. Portanto, não teria sido necessário proibi-las de aprender. Na realidade, é claro, a população negra sempre demonstrou uma impaciência feroz no que se refere à aquisição de educação. (DOUGLASS apud DAVIS, 2016, p. 108).

.

Como Angela Davis faz notar, as pessoas negras que se beneficiavam com o acesso à instrução acadêmica necessariamente vinculavam a aquisição de conhecimento à luta maior de seu povo pela liberdade de agir e pensar. Não é, pois, por mera coincidência histórica que um número expressivo de mulheres brancas que defendiam suas irmãs negras, em diversas situações perigosas - entre as quais se conta a própria Myrtilla Miner -, estavam também visceralmente engajadas na batalha longa e diária pelo direito irrestrito à educação. Assim, “como professoras, as mulheres negras e brancas parecem ter desenvolvido uma profunda e intensa admiração mútua. [...] A união e a solidariedade entre elas ratificaram e eternizaram uma das promessas mais férteis de nossa história.” (DAVIS, 2016, p. 115-116).

“Primeiro a mulher, por último o negro”

Apesar disso, o racismo logrou perseverar mesmo dentro de grupos considerados progressistas, como o efervescente movimento pelo sufrágio feminino - apenas parte do qual se colocava a favor dos direitos das populações afrodescendentes e afrodiaspóricas

E o restante dos Estados Unidos ficou em silêncio. [...] O clero e a imprensa de nosso país permanecem em silêncio diante dessas seguidas atrocidades, e a voz da minha raça, torturada e ultrajada dessa forma, é reprimida ou ignorada em qualquer lugar dos Estados Unidos onde ela se levante para exigir justiça. (WELLS apud DAVIS, 2016, p. 120).

A fim de solucionar a tão controvertida “questão de cor”, nos Estados Unidos, a proposta de Henry Blackwell era tão simplória quanto infame: “adotar o sufrágio feminino como uma solução ao problema do negro”. Desse modo, um dos mais atuantes fundadores do partido republicano buscava persuadir a população do Sul de que o voto das mulheres brancas era extremamente vantajoso à causa anglo-saxã. “Se o sufrágio feminino for aprovado, atrairemos para nossas fronteiras pessoas de caráter e posição, com recursos e educação. [...] Quem hesitaria ao escolher entre as mulheres instruídas e os negros ignorantes?” Como Angela Davis é certeira em observar, enquanto por anos e anos as líderes sufragistas haviam justificado sua indiferença pela pauta da paridade étnico-racial, valendo-se do argumento tático da conveniência, a partir da virada do século, o sufrágio feminino passou a ser defendido como o meio mais eficaz de se alcançar a reconciliação entre Norte e Sul, pela via da segregação racial. Assim, não eram os direitos civis ou a igualdade política das mulheres que moviam a defesa do voto feminino, senão a necessidade de garantir a superioridade racial da população branca diante da “ameaça africana” ao desenvolvimento soberano da nação.

.

.

Angela duvida do poder arconte e desafia o poder soberano jurídico

A voz da suspeição transforma SUA HISTORIA em suspeito.Enquanto lê o texto do processo em voz alta, ela inverte a lógica, enquanto no processo as aspas e leituras na narrativa de Angela é ela que lê a fala do promotor e coloca as devidas aspas, pergunta e desconfia do arquivo. Ao transformar o arquivo em uma obra publicada Angela dá um nó no arquivo:

O impresso é um texto dirigido intencionalmente ao público. é organizado para ser lido e compreendido por um grande número de pessoas, busca divulgar e criar um pensamento, modificar um estado das coisas a partir de uma história ou de uma reflexão. (…) ele existe para convencer e transformar a ordem dos acontecimentos. (FARGE, 2009, p. 13)

O impresso de Angela tem a intenção de transformar a ordem dos acontecimentos tal como narrados pelo processo. Levar ao público outra versão de si mesma e significar os acontecimentos e sua história. Esse projeto de Angela, desafia o poder punitivo não só porque é uma pessoa acusada que o reescreve, mas uma mulher negra. Logo, além da subversão do silêncio e da fala pautada por perguntas de terceiros do acusado, Angela provoca o lugar da racionalidade como atributo branco e masculino.

Para Franzt Fanon, a branquitude europeia colonial funda o Negro como Outro, lhe outorgando- em um processo parecido ao que ocorre com as mulheres- um estatuto de irracionalidade. A vinculação da sexualidade e animalidade aos corpos negros, em oposição a racionalidade descorporificada branca, produz hierarquias civilizatórias, que posicionam o negro e suas motivações no terreno reprimido dos impulsos e paixões:

O branco está convencido de que o negro é um animal; se não for o comprimento do pênis, é a potência sexual que o impressiona. Ele tem necessidade de se defender deste “diferente”, isto é, de caracterizar o Outro. O Outro será o suporte de suas preocupações e de seus desejos (FANON, 2008, p. 147)

O domínio da escrita e racionalidade é atributo colonial, branco e masculino. E de tal forma atravessado pela classe, que Angela, mulher negra alcançou esses domínios e foram essas condições de possibilidade do discurso: “os pobres não escrevem, ou muito pouco, sua biografia” (FARGE, 2009, p. 14). Angela tinha título poderoso do seu domínio da “cultura e civilização” no terreno dos homens brancos: era doutora em filosofia alemã. Logo, apesar de ser uma mulher negra, e portanto localizada no intercruzamento das opressões de raça e gênero, seu letramento e sua origem de classe média a protegeram, em parte, da violência do sistema de justiça.

Ao apropriar-se da fala, e especialmente na sua forma escrita, Angela tensiona ao mesmo tempo branquitude, masculinidade e as configurações das personagens no processo penal. Se para Fanon, falar “é sobretudo assumir uma cultura, suportar o peso de uma civilização” (FANON, 2008, p. 30). Angela suporta o peso da civilização, e mais, ocupa a cena, usa seus meios para traduzir o que viu e viveu nos códigos da racionalidade, com potencia para disputar a verdade sobre os acontecimentos e sobre quem é ela. “Assim como a língua, a cultura oferece ao individuo um horizonte de possibilidades latentes- uma jaula flexível e invisível dentro da qual se exercita a liberdade condicionada de cada um. Com rara clareza e lucidez, Menocchio articulou a linguagem que estava historicamente a sua disposição” (GINZBURG, 2006, p. 20).

Contudo, o projeto autobiográfico de Angela não se inscreve só na perspectiva de exterioridade, em um plano racional abstrato separado da experiência e da auto-reflexividade. O saber produzido por Angela tem corpo, em diversos sentidos” é corporificado, incorporado e encorpado- foi vivido, absorvido e densificado. Empresto a chave proposta por Foucault (2004a) para pensar a escrita autobiográfica como “cuidado de si”. A escrita é arte, companheira e confissão. Ofício da ética de si. Relação consigo mesma que é resistência. Escape da ação produtiva e implacável do poder. Caminho de linhas de fuga.

Angela atravessou a solidão na prisão e depois a violência do processo escrevendo, cartas e um diário. As cartas na prisão tem uma importância ímpar, seja a comunicação entre cadeias, seja dentro e fora do cárcere. A prisão é um dos poucos espaços sociais no século XXI em que esse meio é amplamente utilizado. Butler fala da divulgação da poesia do cárcere, assim como as fotos de guerra, “rompe o tempo todo o contexto”, “são incendiários tanto naquilo que retratam quanto pelas limitações impostas à sua circulação” (BUTLER, 2018, p. 25). A troca de cartas também pode ser inscrita na chave da ética de si, a qual “permite o exercício pessoal, ajuda de outro na elaboração da alma sobre si mesma” (FOUCAULT, 2004a, p. 153). Alguns trechos do diário que narram sua experiência na prisão compõem o texto da biografia (DAVIS, 2013, p. 295 e ss).

A autobiografia de uma mulher transgressora tem uma subversão dupla de gênero- do literário e do feminino- “são raras as biografias de mulheres transgressoras, subversão dos gêneros, inclusive o autobiográfico atribuído tradicionalmente ao masculino” (RAGO, 2013, 34). Em um exercício auto-reflexivo e constitutivo desfazer as “linhas de continuidade histórica”, questionar as “identidades construídas” e constituir-se “relacionalmente como sujeitos múltiplos”. (RAGO, 2013, p. 32), Angela reinventa-se a si e as outras personagens dos acontecimentos de sua narrativa a partir da possibilidade ética e epistêmica sedimentada pelo feminismo, em especial pelo feminismo negro. Escrita esta que reinventa a subjetividade e dá controle sobre a vida (RAGO, 2013, p. 52).

Entretanto, compreende-se que, o feminismo negro reinsurge ressignificado nos idos dos anos 1980, aliando militância e academia. Nesse contexto ganha força ao introduzir a questão da interseccionalidade - termo conceituado especialmente por Kimberlé Crenshaw (2002), de modo a pensar a experiência das mulheres negras como forma de reorganizar o feminismo diante do gênero, da raça, da classe, agregando outros marcadores sociais, como sexualidade, geração, religião e territorialidade.

No que se pode considerar como segunda parte da obra, refletindo sobre o significado da emancipação para as mulheres negras, consta que a escravidão e o racismo continuam fortes no pós-abolição. No trabalho, para ambos os sexos, a exclusão, e particularmente às mulheres, ficaram restritas aos serviços domésticos das casas dos brancos e nos serviços pesados nas lavouras, seguindo a violência e estupros no trabalho, com a conivência das mulheres brancas (DAVIS, 2016, p. 97-99).

Davis aponta as conquistas das mulheres, de maneira determinante para as mulheres brancas, com o direito ao voto, resultando no movimento associativo e na separação racial. A filósofa segue na discussão do capitalismo com as mulheres no trabalho submisso, descrevendo sobre as experiências das principais mulheres feministas comunistas, com a influência do Manifesto Comunista, publicado em 1848, por Karl Marx e Friedrich Engels.

Nesse contexto, esta obra revela ódio e preconceito da população branca contra a negra construída na escravidão e legado desta. Dentre as violências organizadas, destacam-se o linchamento e as organizações que visavam o fim desta população, como a KU KLUX KLAN - organização norte-americana conhecida por realizar atos violentos contra a população negra. Dentre suas ações estava: atacar negros/as nas ruas, violentar, matar; invadir moradias de pessoas negras e estuprar e matar pessoas do sexo feminino, bem como espancamento e homicídio do sexo oposto, ação que perdurou por longos 80 anos (DAVIS, 2016, p. 189 e 197).

Angela é uma mulher que fala e escreve, se ouve e se lê, que se faz ouvida, sujeito político. O processo faz a pergunta para qual ele já tem a resposta: ela não é um sujeito político, alienando a legitimidade da voz dela. Em um contra-ataque, Angela responde ao questionamento social e judicial de quem é ela inaugurando seu arquivo pessoal e exercitando a ética de si e reescrevendo a história sob seu ponto de vista. No decorrer da sua autobiografia, três acontecimentos da narrativa de Angela são experiências do “encobrimento que desmascara”. São momentos localizados na sua infância, adolescência e início da idade adulta que podem ser vistos como performances que desnudam o poder; mitos de origem que deflagram a negritude na cena branca. Como uma mulher negra que fala e escreve, ela pode deslocar-se do lugar que lhe fora reservado na sociedade e na cena do julgamento, usar a “máscara branca”, o privilégio do discurso e da auto-reflexividade para desmascarar o racismo e sexismo, fazer resplandecer o “insólito que persiste” apontado por Fanon.

Por fim, a recepção crítica de Mulheres, raça e classe por parte da crítica mostrou que a obra levou um longo tempo para ser publicada no Brasil e foi lançada em um momento histórico no qual o nome de Angela Davis estava presente na mídia de nosso país. Soma-se a isso o fato de os estudos de raça e gênero estarem, aos poucos, ganhando uma maior visibilidade. O sucesso de vendas do livro sugere que existe um público leitor brasileiro, mesmo que vinculado a contextos acadêmicos e/ou ideológicos específicos, que se interessa por textos da diáspora africana e que tratem de questões de gênero. Provas disso foram os diversos comentários dos leitores sobre a obra no site da Amazon e a presença do livro nas mãos de inúmeras pessoas que estiveram na palestra de Davis na UFBA em 2017.

Retomando o pensamento de Alvarez e Costa (2013) de que certamente a tradução não ocorre sem um "visto", o impacto de Mulheres, raça e classe tem relação direta com todo um aparato construído no sistema cultural brasileiro para a sua produção, divulgação e circulação. Ou seja, a estratégia da Boitempo, ao trazer para o Brasil um livro clássico, já reconhecido mundialmente, de uma intelectual renomada, ocorreu em um cenário devidamente preparado para a publicação da obra de Angela Davis. Espera-se, portanto, que sejam elaborados novos aparatos que forneçam suporte a novos projetos de tradução, com o objetivo de fazer reverberar a multiplicidade e a riqueza de vozes da diáspora negra, em seus mais diversos contextos.

2"The one extraordinary event of my life had nothing to do with me as an individual - with a little twist of history, another sister or brother could have easily become the political prisoner whom millions of people from throughout the world rescued from persecution and death".

3"As useful an exposition of the current dilemmas of the women's movement as one could hope for".

4"She places in context the often acrimonious debate over the whiteness and elitism of feminism".

5Informações retiradas do site Index Translationum, um banco de dados da UNESCO que contém listas de livros traduzidos em diferentes línguas e países.

6"The comparison of T1 e T2 is therefore a relevant part of translation studies - as long as it does not obscure the wider perspective".

7"[...] like all (re)writings [translation] is never innocent. There is always a context in which the translation takes place, always a history from which a text emerges and to which a text is transposed".

8"[...] responsible to a large extent for the image of a work, a writer, a culture".

9"Translations always come into being within a certain cultural environment and are designed to meet certain needs of, and/or occupy certain 'slots' in it".

10"Translators must make choices, selecting aspects or parts of a text to transpose and emphasize. Such choices in turn serve to create representations of their source texts, representations that are also partial. This partiality is not to be considered a defect, a lack, or an absence in a translation; it is a necessary condition of the act".

11"[...] is metonymic: it is a form of representation in which parts or aspects of the source text come to stand for the whole".

12"[...] the identity and affiliations of the author, the identity and affiliations of the translator, the connections of the translator with social and political movements, the reception context (such as reviews, censorship, legal action) of translation".

13"[...] as both a political project and an episteme for apprehending and negotiating the globalized Américas, one that can potentially be embraced widely across the hemisphere and beyond".

14"[...] race is a category that is "read" in specific ways in different racial formations".

Vamos agora apresentar algumas reflexões da pesquisa Levada pela paixão”: gênero, raça e classe no processo criminal de Angela Davis que tem por objetivo investigar um caso de produção de subjetividade de mulher criminosa pelo sistema de justiça criminal. Trata-se de um trabalho empírico de natureza qualitativa com uso de análise documental, com o objetivo de pensar as condições de possibilidade da emergência do discurso penal e do contra-discurso da acusada a partir da escrita autobiográfica de Angela Davis. Inspirada pela epistemologia feminista negra proponho a estratégia do estudo de caso único para escavar o processo criminal e revelar as disputas de sentido em torno da narrativa criminal e subjetividade das pessoas envolvidas. Ao final, costuro três acontecimentos de sua biografia, nos quais Angela se marcara para desnudar a ação do poder.

Angela é presa em Nova York em 14 de novembro de 1970,por vários envolvimentos como pertencer ao partido comunista e outros bastante marginalizados. Os espaços designados para Angela na prisão revelam a vontade de poder institucional e formas especificas de subjetividade: em um primeiro momento ela é colocada na solitária, e depois na ala de mulheres com transtornos mentais. Sob o discurso oficial de garantir sua segurança, o sistema de justiça tenta neutralizar Angela enquanto sujeita política no cárcere. Proibida de falar, Angela lê e escreve, e é nesse momento que começa a escrever trechos que seriam publicados na sua autobiografia quatro anos depois

No mundo todo reverbera o movimento de liberdade para Angela, organizado em torno National United Committee to Free Davis and All Political Prisoners. Em fevereiro de 1972, a Suprema Corte da Califórnia declara a pena de morte inconstitucional, e por consequência derruba o principal argumento que sustentava a prisão preventiva de Angela: de que ela respondia por um crime capital. A pressão política conjugada com o momento favorável leva a liberação de Angela Davis sob fiança depois de passar 18 meses presa. O promotor Albert Harris, logo em seu pronunciamento de abertura, anunciou a escolha de construir a narrativa da acusada pela perspectiva da paixão amorosa, afastando todo contexto social e político do caso:

A evidência mostrará que a alegação de perseguição política, a reivindicação de perseguição política, a alegação de que a ré é uma prisioneira política, a alegação de que a ré é objeto de perseguição por causa de suas crenças políticas - todas essas alegações são falsas. e sem fundamento. 3 (DAVIS, 2013, p. 359)

Ainda quando em alguns momentos do seu pronunciamento, o promotor reconheça a política em Angela ao fazer referências à ela como intelectual, comunista e ativista na liberação de presos- diminui sua importância em nome da emoção: “Suas próprias palavras revelarão que, sob o verniz cool acadêmico, há uma mulher cheia de culpa de ser levada à violência pela paixão ”. Nega explicitamente a motivação política que a movia : “(…) Não se baseou no desejo de justiça social. Foi simplesmente sobre a paixão que ela sentia por George Jackson" 4 e desloca a luta social para uma questão individual “(…) A evidência mostrará que seu motivo básico não era libertar os presos políticos, mas libertar o único prisioneiro que ela amava”. 5 (DAVIS, 2013, p. 359). Na sua autobiografia, ela reproduz parte de seu pronunciamento, na qual traz a hipótese explorada na pesquisa:

Harris tinha tentado elaborar o júri com uma teoria absurda de ter sido impelida a cometer assassinato, sequestro e conspiração pela minha 'paixão ilimitada e consumidora' por George. Ao expurgar seu caso das acusações políticas originais, o promotor achou que ele estava sendo perspicaz 6. (DAVIS, 2013, p. 358).

O processo acaba em 4 de junho de 1972 com Angela absolvida de todas as acusações. Além do capital intelectual e suas condições pessoais e jurídicas de desafiar o poder punitivo, Angela teve como trunfo a mobilização social, com diversos intelectuais e artistas do mundo inteiro pedindo sua libertação. Por isso, que ela ataca a ideia disseminada durante a sua prisão de que “uma mulher negra sozinha conseguiu afastar o poder repressivo do Estado” 7, para colocar o poder coletivo de milhares de pessoas que lutaram contra o racismo e repressão policial ao seu lado na batalha contra o Estado (DAVIS, 2013, p. ix).

.

O absurdo da centralidade da motivação passional na tese acusatória contra Angela Davis revela algo muito específico do funcionamento do sistema de justiça no que diz respeito à produção da subjetividade da mulher negra de forma geral. Ainda que tratando-se de uma mulher com a trajetória de Angela Davis, com uma série de marcas da racionalidade, branquitude e masculinidade ocidental: doutorado em filosofia, porta-voz de vários movimentos, procurada pelo FBI- o sistema de justiça faz uma torção discursiva para dissimular suas motivações políticas e racionais, na tentativa de reduzir a subjetividade complexa e multifacetada de Angela a uma “mulher movida pela paixão”. A escolha metodológica pelo caso único carrega uma série de implicações analíticas. Afirmar a força de uma história como significativa da experiência de uma mulher negra pelo sistema de justiça criminal é resistir ao “enquadramento”, a produção normativa que apreende a vida (BUTLER, 2018).

Debora Diniz (2013) ao pesquisar os arquivos manicomiais brasileiros identificou a mulher e o homem há mais tempo presos em manicômios judiciários no Brasil. A partir desses dois arquivos, Debora Diniz (2015) e Luciana Brito (2016) retomam respectivamente as histórias de Zefinha e Juvenal, propondo conduzi-las como pesquisas em “arquivo sobre acontecimento único, e não um estudo de caso:

Zefinha não é um estudo de caso, daqueles com propriedades heurísticas para falar das 291 mulheres na multidão dos loucos bandidos. Velha, com esquizofrenia e acusada de lesão corporal, é só ela. E nenhuma outra com mais de década vivendo em manicômio judiciário. (DINIZ. 2015, p. 576)

A partir do estudo do caso Angela Davis ,eis uma síntes e das experiências das mulheres negras pelo sistema de justiça criminal norte americano dos anos 1970; mas, destacar algumas práticas e discursos do sistema de justiça em relação à ela, que apontam para uma forma específica de saber-poder da justiça penal, que se reatualiza de acordo com contexto, circunstâncias e personagens, mas cuja permanência pode ser identificada em relação a outras rés e processos.

Durante sua escrita autobiográfica a própria Angela enfrenta a ambiguidade de ser uma em uma multidão, e portanto individualizada, visibilizada; ao mesmo tempo em que vive experiências racistas e sexistas comuns ao funcionamento do sistema de justiça. Ainda no prefácio da obra, declara que escrever uma autobiografia tão jovem (Angela tinha 30 anos à época) poderia parecer presunçoso, mas ao invés de interpretar o atravessamento penal como um evento extraordinário em sua vida, pretende a partir dele mostrar que as forças que moldaram sua vida são as mesmas que formara e deformaram a vida de milhões de pessoas: “O único evento extraordinário da minha vida não teve nada a ver comigo como indivíduo - com uma pequena reviravolta na história, outra irmã ou irmão poderia facilmente tornar-se prisioneiro político a quem milhões de pessoas de todo o mundo resgataram da perseguição e da morte” 9 (DAVIS, 2013, p. XV).

Causa um certo estranhamento a afirmação que poderia ser qualquer pessoa em seu lugar, porque de alguma forma o acesso à cultura e à alta educação desde cedo, fortaleceram Angela no enfrentamento de violências comuns da população negra nos Estados Unidos, especialmente perpetradas pelo sistema de justiça criminal. Ao mesmo tempo, outra possibilidade discursiva naquele momento iria de encontro as suas convicções e sua posição no movimento negro e feminista. Por isso, Angela enfrenta a ambiguidade de ser uma e ser muitas, e desde sua condição de privilégio frente à população negra e pobre das prisões e dos guetos- justamente por “ter escapado do pior”- reafirma a identificação com a experiência negra:

É fortuito estar entre os que escaparam do pior. Uma pequena reviravolta do destino e eu poderia afogar-nos na lama da pobreza, da doença e do analfabetismo. É por isso que nunca senti que tinha o direito de me considerar diferente das minhas irmãs e irmãos que sofreram por todos nós.10 (DAVIS, 2013, p. 293).

Tanto o de Angela quanto a estratégia de estudo de caso se inserem na chave da epistemologia feminista, no sentido de que as experiências e ideias ilustrados por mulheres negras individualmente, caracterizam suas experiências como grupo (COLLINS, 2000, p. 17). Logo, ainda que Angela Davis seja um caso, e mais especificamente de um caso único , sua narrativa conta muito acerca dos processos de racialização e engendramentos experimentados pelas pessoas acusadas pelo sistema de justiça criminal, e desafiam as interpretações dominantes sobre os grupos oprimidos (COLLINS, 2000, p. 24).

Para a reedição da autobiografia em 1988, 15 anos após a primeira publicação, Angela Davis escreve uma Introdução na qual avalia positivamente o projeto de escrita do livro. Nesse texto, para pensar o lugar de sua biografia na chave personalização x generalização, Angela provoca o sentidos da máxima do movimento feminista de que “o pessoal é político”, ao afirmar que qualquer tentativa de demarcar definitivamente essas duas dimensões causa, inevitavelmente, distorções na realidade social. Por isso, Angela fala que não escreveu sobre si mesma, mas tentou utilizar o gênero autobiográfico para interpretar sua vida de acordo com o que considerava ser politicamente significante em sua experiência (DAVIS, 2013, p. viii).

Ao refletir sobre o sistema de justiça criminal a partir de sua própria experiência, Angela Davis endossa as vozes do feminismo negro, especialmente no que tange aos meios de constituição e estatutos do saber. Em uma proposta epistemológica própria, as mulheres negras têm produzido conhecimento a partir de experiências diversas, localizadas no intercruzamento de uma série de marcadores que produzem desigualdade e assimetria nas relações de poder. A experiência de viver na adversidade sustenta a epistemologia feminista negra:

Quando confrontadas com essa injustiça estrutural voltada para o grupo, muitas mulheres Negras insistiram em nosso direito de definir nossa própria realidade, estabelecer nossas próprias identidades e nomear nossa história 11 (COLLINS, 2000, p. 72).

As questões não giraram em torno da verdade da história, ou da história verdadeira, ou ainda da vontade da verdade do processo penal pela “busca da verdade real”. Não se trata de uma análise sobre a verdade, mas acerca das condições de possibilidade que permitiram que Angela Davis fosse construída como uma “mulher levada pela paixão”; e mais, lhe permitiram o exercício do contra-poder, da resistência, ao reescrever e reinscrever seu processo na sua narrativa autobiográfica. Nas condições de possibilidade de emergência desse discurso e contra-discurso, e nas formas de poder-saber que operam no acontecimento único, está o potencial de generalização deste caso, ou seja, a possibilidade de- para além de compreender o que aconteceu com Angela- pensar como esse acontecimento revela modos de funcionar do sistema de justiça criminal, que nos ajuda a pensar o seu funcionamento. Explicitar um contra-discurso não elimina, mas antes confirma, o interesse de entender como o discurso hegemônico cria ou força as condições de possibilidade daquele contra-discurso.

Desses questionamentos decorrem a escolha metodológica, analítica e política de não utilizar o processo criminal como fonte deste trabalho, uma vez que ali a fala é mediada pelos sistemas de produção da verdade jurídica. Ao adotar a contra-escrita bibliográfica como fonte única da pesquisa, desafio acompanhada de Angela, o status de poder de contar a história e se dizer a acusada. Em um processo penal anti-racista e anti-machista está em jogo a capacidade da Outra constituir-se ao invés de ser constituída, ser ela a autora, não do crime, mas da sua história e narrativa. O fato de Angela Davis assumir a autoria quebra o princípio de universalização. Ela se individualiza. As instituições do direito e da burocracia constituem o Outro, como não-indivíduo, em uma marcação racista, colonial e engendrada. O privilégio da branquitude é ser indivíduo, poder desde aí nomear o Outro e contar a História. Angela, encarnando o duplo autora-acusada sequestra desse privilégio, toma a cena do julgamento, e depois conta de si e de sua história.

Derrida nomeia arconte o poder de quem cria o arquivo. A expressão remete aos arkontes - primeiros guardiões dos documentos oficiais da Grécia antiga. Cabia à eles não só a propriedade física dos arquivos, mas de seu potencial hermenêutico:

Depositados sob a guarda dessas arcontes, estes documentos diziam, de fato, a lei: eles evocavam a lei e convocavam à lei. Para serem assim guardados, na jurisdição desse dizer a lei geral necessárias ao mesmo tempo um guardião e uma localização. Mesmo em sua guarda ou em sua tradição hermenêutica, os arquivos não podiam prescindir de suporte nem de residência (DERRIDA, 2001, p. 13)

Logo, o guardião mais do que guardar o passado, tem papel fundamental na constituição do arquivo, na medida em que o arquivo conserva ao mesmo tempo que institui: “o arquivamento tanto produz quanto regista eventos” (DERRIDA, 2001, p. 28-29). Na economia do arquivo se guarda, coloca luz, dá força, se nomeia, se categoriza, se esquece. O desejo de saber do arquivante e a estrutura do arquivamento vão ser determinantes na criação e conservação do arquivo.

A confecção da própria história, principalmente pelo código escrito, é exercício de poder, na medida em que a produção do saber está completamente associada ao poder, servindo um de sustentáculo ao outro. Angela exerce poder na medida em que se apropria dos instrumentos, espaços e códigos de produção do saber, disputando o campo de produção de verdade sobre si. Uma tomada do poder e dos meios de produção de sua história, cujo saber jurídico, médico, policial e penitenciário tratam de se apropriar: “As práticas judiciárias (...) me parecem uma das formas pelas quais nossa sociedade definiu tipos de subjetividade, formas de saber e, por conseguinte, relações entre o homem e a verdade” (FOUCAULT, 2003, p. 11).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVAREZ, S.; COSTA, C. L. (2013). A circulação das teorias feministas e os desafios da tradução. Estudos feministas, v. 21, nº 2, pp. 579-586. [ Links ]

ALVAREZ, S. (2014). Introduction to the Project and the Volume: Enacting a Translocal Feminist Politics of Translation. In: ALVAREZ, S. et al. Translocalities/Translocalidades: Feminist Politics of Translation in the Latin/a Américas. Durham/London: Duke University Press, pp. 1-18. [ Links ]

AMAZON (2018). Mulheres, raça e classe: avaliação de clientes. Disponível em

LEFEVERE, A. (1990). Introduction: Proust's Grandmother and the Thousand and One Nights: The "Cultural Turn" in Translation Studies. In: BASSNETT, S.; LEFEVERE, A. (orgs.). Translation, History and Culture. London: Pinter Publishers, pp. 1-13. [ Links ]

BOITEMPO EDITORIAL (2018). Heci Regina Candiani: tradutora. Disponível em. Acesso em: 31 jan. 2018. [ Links ]

BOITEMPO EDITORIAL (2018). Mulheres, raça e classe: Angela Davis. Disponível emLinks ]

BOITEMPO EDITORIAL (2018). Sobre a Boitempo. Disponível em. Acesso em: 01 fev. 2018. [ Links ]

BORGES, R. (2016). Orelhas. In: DAVIS, A. Mulheres, raça e classe, trad. Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo. [ Links ]

CARTAZ DO FILME "LIBERTEM ANGELA DAVIS". (2014). Disponível emAcesso em: 25 fev. 2018. [ Links ]

COLETIVO INTERVOZES. (2014). Racismo na mídia: entre a negação e o reconhecimento. Disponível em. Acesso em: 25 fev. 2018. [ Links ]

COSTA, C. L. (2014). Introduction to Debates about Translation: Lost (and Found?) in Translation/Feminisms in Hemispheric Dialogue. In: ALVAREZ, S. et al. Translocalities/Translocalidades: Feminist Politics of Translation in the Latin/a Américas. Durham/London: Duke University Press, pp. 19-36. [ Links ]

COSTA, I. (2016). 'Mulheres, Raça e Classe' ganha tradução para o português. Disponível em. Acesso em: 02 fev. 2018. [ Links ]

DAVIS, A. (1974). Angela Davis: An Autobiography. New York: Bantam. [ Links ]

DAVIS, A. (2016a). Angela Davis apresenta o livro da camarada Erika Huggins, trad. Jaqueline Conceição da Silva. Disponível em

DAVIS, A. (2017a). Atravessando o tempo e construindo o futuro da luta contra o racismo. Disponível em. Acesso em: 02 fev. 2018. [ Links ]

DAVIS, A. (2016b). Mulheres, raça e classe, trad. Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo. [ Links ]

DAVIS, A. (2013). Mulher, raça e classe, trad. Plataforma Gueto. Disponível em]

DAVIS, A. (2017b). O discurso de Angela Davis na Women's March, trad. Juliana Borges. Disponível em. Acesso em: 31 jan. 2018. [ Links ]

DAVIS, A. (1983). Women, Race & Class. New York: Vintage Books. [ Links ]

GENETTE, G. (2009). Paratextos editoriais, trad. Álvaro Faleiros. Cotia: Ateliê Editorial. [ Links ]

GENTZLER, E.; TYMOCZKO, M. (2002). Introduction. In: GENTZLER, E.; TYMOCZKO, M. (orgs.). Translation and Power. Amherst/Boston: University of Massachusetts Press, pp. 11-28. [ Links ]

INDEX TRANSLATIONUM. (2018). Disponível em. Acesso em: 15 jan. 2018. [ Links ]

LAMBERT, J.; VAN GORP, H. (1985). On Describing Translations. In: HERMANS, T. (org.). The Manipulation of Literature. London: Croom Helm, pp. 42-53. [ Links ]

LEFEVERE, A. (1990). Translation: Its Genealogy in the West. In: BASSNETT, S.; LEFEVERE, A. (orgs.). Translation, History and Culture. London: Pinter Publishers, pp. 14-28. [ Links ]

LEFEVERE, A. (1992). Translation, Rewriting and the Manipulation of the Literary Fame. London/New York: Routledge. [ Links ]

LUCENA, E. (2014). Crítica: Filme acerta o foco ao contar libertação de Angela Davis. Disponível em. Acesso em: 25 fev. 2018. [ Links ]

MEIRELES, M. (2017). Do comercial ao 'cabeça', editoras do país exploram livros feministas. Disponível em. Acesso em: 02 fev. 2018. [ Links ]

PUBLISH NEWS. (2018). Lista de mais vendidos de não ficção de 2017. Disponível em

RIBEIRO, D. (2016). Prefácio à edição brasileira. In: DAVIS, A. Mulheres, raça e classe, trad. Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, pp. 11-13. [ Links ]

SPERB, P. (2016). Aos 35 anos, obra de Angela Davis permanece atual e necessária. Disponível em. Acesso em: 02 fev. 2018. [ Links ]

TOKARNIA, M. (2014). Angela Davis critica ausência de negros no poder e na televisão no Brasil. Disponível em: Acesso em: 25 fev. 2018. [ Links ]

TOURY, G. (1995). Descriptive Translation Studies and Beyond. Amsterdam/Philadelphia: John Benjamins. [ Links ]

TYMOCZKO, M. (2010). The Space and Time of Activist Translation. In: TYMOCZKO, M. (org.). Translation, Resistance, Activism. Amherst and Boston: University of Massachusetts Press, pp. 227-254. [ Links ]

TYMOCZKO, M. (1999). Translation in a Postcolonial Context. Manchester: St. Jerome, 1999.

ALCOFF, Linda Martín. Uma epistemologia para a próxima revolução. Revista Sociedade e Estado, Volume 31, Número 1, Janeiro/Abril 2016, pp. 129-143. [ Links ]

APTHEKER, Bettina. The Morning Breaks: The Trial of Angela Davis. New York: Cornell University Press, 1999. [ Links ]

BRITO, Luciana Stoimenoff. O arquivo de um sequestro: o homem mais antigo do Brasil. 2016. [127] f., il. Tese (Doutorado em Ciências da Saúde)-Universidade de Brasília, Brasília, 2016. [ Links ]

BUTLER, Judith. Quadros de Guerra: quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018. [ Links ]

COLLINS, Patricia Hill. Black feminist thought: knowledge, consciousness, and the politics of empowerment. Nova York/Londres, Routledge: 2000. [ Links ]

DAS, Veena. O ato de testemunhar: violência, gênero e subjetividade. Cadernos Pagu, Campinas, SP, n. 37, p. 9-41, abr. 2016. [ Links ]

DAVIS, Angela. Angela Davis: An Autobiography. New York: Random House, 2013. [ Links ]

DERRIDA, Jaques. Mal de Arquivo, uma impressão freudiana. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001. [ Links ]

DINIZ, Debora. Ela, Zefinha - o nome do abandono. Ciênc. saúde coletiva, Rio de Janeiro , v. 20, n. 9, p. 2667-2674, Sept. 2015. [ Links ]

______. A custódia e o tratamento psiquiátrico no Brasil: censo 2011. Brasília: Letras Livres, EdUnB; 2013. [ Links ]

FARGE, Arlette. O sabor do arquivo. São Paulo: Edusp, 2009. [ Links ]

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. 2008. Salvador: Edufba, 2008. [ Links ]

FOUCAULT, Michel. A escrita de si. In: ______. Ética, sexualidade, política: Ditos & escritos V. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004a, p. 144-162 [ Links ]

______. A vida dos homens infames. In: ______. Estratégia, poder-saber. Ditos e escritos IV. Rio de Janeiro: Forense Universitária, p. 203-222, 2004b. [ Links ]

______. A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro, Nau Editora, 2003. [ Links ]

FREE ANGELA AND ALL POLITICAL PRISONERS. Direção: Shola Lynch. Produção: Shola Lynch, Sidra Smith, Carole Lambert, Carine Rusniewski. Realside Productions, De Films en Aiguille: 2012. [ Links ]

GINZBURG, Carlo. Queijo e os Vermes. O cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. [ Links ]

JACKSON, George. Soledad Brother: The Prison Letters of George Jackson. Jackson, Jonathan, Genet, Jean, Jackson, George. Chicago: Chicago Review Press, 1994. [ Links ]

RAGO, Margareth. A Aventura de Contar-se: feminismos, escrita de si e invenções da subjetividade. Campinas: Editora da Unicamp, 2013. [ Links ]

TEDESCHI, Losandro Antonio. História das mulheres e as representações do feminino.. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 17, n. 3, p. 924, set. 2009. [ Links ]

1Ao lado da autobiografia de Angela Davis, publicada originalmente em 1974. O livro de Bettina Aptheker The morning breaks (1999) que traz a transcrição das referidas cartas; assim como o livro de cartas de George Jackson (1994) enviadas da Soledad Prison também foram fontes importantes para situar o acontecimento nas trajetórias dos dois e no contexto histórico do julgamento, e serão objeto de futura investigação.

2Fala do filme Free Angela Davis and all political prisoners (2012) dirigido por Shola Lynch. Tradução minha, no original: “you couldn’t have put things together with anyone that would’ve been more problem-creating, than Angela Davis”.

3Tradução no original: “The evidence will show that the claim of political persecution, the claim of political persecution, the claim that the defendant is a political prisoner, the claim that the defendant is the subject of prosecution because of her political beliefs- all of these claims are false and without foundation”

4Tradução no original: “(…) It was not founded on a desire for social justice. It was founded simply on the passion what she felt for George Jackson"

5Tradução no original: “Her own words will reveal that beneath the cool academic veneer is a woman full of culpable of being moved to violence by passion”

6Tradução no original: “Harris had attempted to work up the jury with an absurd theory of my having been impelled to commit murder, kidnapping and conspiracy by my ‘boundless and all consuming passion’ for George. By purging his case of the original political accusations, the prosecutor thought he was being shrewd.

7Tradução, no original: “a single Black women successfully fended off the repressive might of the state".

8Tradução, no original: “of my having been impelled to commit murder, kidnapping and conspiracy by my ‘boundless and all-consuming passion’ for George”.

9Tradução, no original: “The only extraordinary event of my life had nothing to do with me as individual- with a little twist of history, another sister or brother could have easily become the political prisoner whom millions of people from throughout the world recued from persecution and death”.

10Tradução, no original: “I had always thought it was fortuitous that I was among those who had escaped the worst. One small twist of fate and I might drowned in the muck of poverty and disease and illiteracy. That is why I never felt I had the right to look upon myself as being different from my sisters and brothers who did all the suffering, for all of us”.

11Tradução, no original: “When faced with this structural injustice targeted toward the group, many Black women have insisted on our right to define our own reality, establish our own identities, and name our history”.

12Um segundo movimento de pesquisa, que passo a desenvolver como continuidade deste trabalho, terá como objeto a construção da verdade jurídica no processo criminal. Partindo de outra proposta analítico-metodológica pretendo compreender os códigos do arquivo com o qual Angela dialoga e os enquadramentos que ele produz. Parto do contra-arquivo para conhecer o arquivo, para então pensar em como essas epistemes se compõem.

13Tradução, no original: “Magge’s prison life began when he was 16, about the same age Miss Davis, the daughter as a middle class Family, earned a scholarship to Brandeis University...In the years that Miss Davis followed a college career that took her to Europe and finally to the University of California at San Diego to study her Ph.D under Herbert Marcuse, Magee studied law books in the cell.”

14Tradução, no original: “never harbor or express the desire to be white. This promise that I made to myself did nothing, however, to drive away wishdreams that filled my head whenever my desires collided with taboo. So, in order that my daydreams not contradict my principles, I constructed a fantasy in which I would slip on a white face and go unceremoniously into the theater or amusement park or wherever I wanted to go. After thoroughly enjoying the activity, I would make a dramatic, grandstand appearance before the white racists and with a sweeping gesture, rip off the White face, laugh wildly and call them all fools.”

15“Jim Crow shop” em referencia as leis de Jim Crow que institucionalizaram a segregação racial nos Estados Unidos de 1876 e 1965.

16Tradução, no original: “At the sight of two young Black women speaking a foreign language, the clerks in the store raced to help us. Their delight with the exotic was enough to completely, if temporarily, dispel their normal disdain for Black people”.

17Tradução, no original: “All Black people have to do is pretend they come from another country, and you treat us like dignitaries”.

18Seu idealizador, Frank Lloyd Wright quis representar a natureza da justiça nos Estados Unidos: em um julgamento, os participantes não deveriam ficar lutando um contra o outro, ao contrário, eles estariam de mãos dadas em volta do círculo na busca comum por justiça (DAVIS, 2013, 287). Contudo, para Angela, a “justiça em circulo” parecia atender o propósito de quebrar a aliança entre ela e seu co-réu Ruchell Magee ao colocá-los longe um do outro (DAVIS, 2013, 292). Ao mesmo tempo, esse formato arquitetônico deixou Angela, literalmente, no centro da cena da justiça

:CRENSHAW, Kimberlé. “Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero”. Estudos Feministas, v. 10, n. 1, p. 171-188, 2002. [ Links ]

DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. Tradução de Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2016. [ Links ]

MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. 2.ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2006. [ Links ]

Tudo está relacionado'de André Penteado, ou o momento em que Angela Davis habitou uma sala comercial na avenida Sumaré

'Everything is related' by André Penteado, or the moment when Angela Davis occupied a commercial area on Avenida Sumaré

DAVIS, A. Mulheres, cultura e política. São Paulo: Boitempo, 2017. [ Links ]

_____. A liberdade é uma luta constante. São Paulo: Boitempo, 2018. [ Links ]

_____. Uma autobiografia. São Paulo: Boitempo, 2019. [ Links ]

RIBEIRO, D. O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento; Justificando, 2017. [ Links ] CHEVIGNY, Bell Galé. "Introduction." In: CHEVIGNY, Bell Galé (ed.). Doing Time: Twenty-Five Years of Prison Writting. New York: Arcade, 1999.

BEAUMONT DE LA BONNINIÈRE, Gustave, and TOCQUEVILLE,, Alexis de. On the Penintentiary System in the United States and Its Application in France. Carbondale: Southern Illinois University Press, 1964 (1833).

DRESCHER, Seymour. Tocqueville and Beaumont on Social Reform. New York: Harper & Row, 1968.

FREEDMAN, Estelle. Their Sister's Keepers: Women's Prison Reform in America, 1830-1930. Ann Arbor: University of Michigan Press, 1981.

LUXEMBURG, Rosa. Rosa Luxemburg: Writtings and Reflections. Ed. Paul Le Blanc. Amherst, NY: Humanity Books, 1999.

TOCQUEVILLE, Alexis de. Democracy in America. New York: Vintage, 1990 (1835).

Carneiro, Sueli (2003) "Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero." In ASHOKA, Empreendedores Sociais e TAKANO Cidadania (org). Racismos Contemporâneos. Rio de Janeiro: Takano [Consult. 2015-11-22] Disponível em: http://www.unifem.org.br/sites/700/710/00000690.pdf [ Links ]

Davis, Angela (1981). Mulher, raça e classe. Tradução Livre. Plataforma Gueto_2013. [ Links ]

Didi-Huberman, Georges (2010). Atlas. ¿Cómo llevar el mundo a cuestas? Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, Madrid. 26 noviembre 2010 – 28 marzo 2011. [ Links ] Davis, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo, Boitempo, 2016 (1981). [ Links ]

hooks, bell. Ain’t I a woman: black women and feminism. London, Pluto Press, 1982. [ Links ]

Truth, Soujourner. E não sou uma mulher? 2014 [http://www.geledes.org.br/e-nao-sou-uma-mulher-sojourner-truth/#gs.h8jBXJA

Hooks, Bell (2015, jan.-abr.). "Mulheres negras: moldando a teoria feminista." Revista Brasileira de Ciência Política, Brasília, n. 16: 193-210. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/0103-335220151608. [ Links ]

Ruiz, Cristina Tartás & Garcia, Rafael Guridi (2013). "Cartografías de la Memoria. Aby Warburg y el Atlas Mnemosyne.": Revista de Expresión Gráfica Arquitectónica, n. 21: 226-35. [Consult. 2015-11-22] Disponível em: http://dialnet.unirioja.es/ejemplar/335370 [ Links ]

Russo, Felipe (2015 nov.). Tudo está relacionado, André Penteado e o outro. Jornal de Borda 02. [ Links ]

Samain, Etienne (2011 jul.). "As 'Mnemosyne(s)' de Aby Warburg: Entre antropologia, imagens e arte." Revista Poiesis, Niterói, n. 17: 29-51. [Consult. 2015-11-19] Disponível em: http://www.poiesis.uff.br/ [ Links ]

Ao impacto da prisão como a instituição paradigmática da democracia - resumindo a democracia em uma reforma, com suas necessárias e conseqüentes contradições. Refletindo sobre a viagem de pesquisa de Gustave de Beaumont e Aléxis de Tocqueville, em 1831, aos Estados Unidos, para estudarem a nova penitenciária americana, não podemos deixar de nos lembrar do importante contexto que produziu o volume Democracy in America (Democracia Americana).5 Claro, é por isso que temos algo específico para dizer sobre um conceito e uma prática de descolonização que não desafia o uso contemporâneo da prisão ao redor do mundo. Continuamos a achar que a prisão é por si só uma fronteira. Essa análise vem de prisioneiros que definem a distinção entre 'mundo livre' e o espaço A prisão como fronteira: uma conversa sobre gênero, globalização e punição

Uma crítica radical à indústria da punição. Parece-me que essa visão permanece como um dos pontos fortes da Resistência Crítica, refletindo-se até em sua estrutura - uma rede flexível de trabalho e uma campanha, ao invés de uma organização de associados, unindo pessoas cujos trabalhos abordam temas relativos a prisões, sem serem primariamente definidos por elas (por exemplo, educação, saúde, mídia e meio ambiente), com ex-detentos, prisioneiros atuais, ativistas e trabalhadores culturais, lutando unidos contra o Complexo Industrial Carcerário. Como a Resistência Crítica baseia-se na idéia de divulgar informações sobre a natureza socialmente destrutiva do aprisionamento - as ligações entre a economia corporativa e a indústria da punição sob a globalização - ela chama indivíduos e organizações envolvidos com a questão a afiliar-se sob variadas formas, incluindo-se aí os que assumem o trabalho e o nome da Resistência Crítica. É claro que isso está também ligado à articulação e ao desenvolvimento do abolicionismo como a visão, e não apenas como o objetivo do trabalho - um programa pragmático que busca também analisar seus próprios limites em uma crítica radical à indústria da punição nesses dias de reforma. Acho que era essa a visão - ligada à questão do abolicionismo anti-escravista do século XIX - que também ajudou a mudar nosso processo de trabalho quando nós sete nos encontramos em Irvine, como grupo de pesquisa.3

ANGELA: Sim, estamos nos valendo de importantes legados. Recentemente, em uma releitura de um estudo de Rosa Luxemburgo,4 sobre a relação entre acumulação de capital e imperialismo, impressionou-me o modo como seu trabalho fortemente ecoa nossas críticas contemporâneas da globalização. Isso me lembrou a rica história da oposição teórica e militante ao imperialismo - especialmente na tradição marxista - e como o esquecimento dessa história pode ser tão desempoderador. Formações radicais da classe trabalhadora - partidos e sindicatos, por exemplo - têm uma história que reconhece a tendência que tem o capital de desconsiderar fronteiras nacionais e assim internacionalizar sua resistência. É sobre esse pano de fundo que estamos reconceitualizando a relação entre o Complexo Industrial Carcerário e a globalização - desde uma discussão de como a prisão está sendo afetada pela globalização da economia (em que a prisão se encaixa na globalização) até a utilização da prisão como uma instituição histórica contingente que não só prognostica/pressagia a globalização, mas nos permite pensar hoje sobre as intersecções entre punição, gênero e raça, dentro e além das fronteiras dos Estados Unidos.

GINA: Sem dúvida, retornamos repetidamente por trás dos muros da prisão. Essa é uma importante interpretação que, de um lado, desfaz as ilusões das fortes nações-Estado e, de outro, a aparente desorganização e caos do movimento do capital. Existe uma economia política bastante específica da prisão que traz à luz a intersecção de gênero e raça, colonialismo e capitalismo.

ANGELA: Nossas próprias visitas a prisões na Europa, América do Sul, Austrália e Estados Unidos nos permitiram iniciar uma reflexão sobre a atração que a prisão exerce através do tempo e do espaço, como o paradigma de maior influência para a punição nesses dois últimos séculos. Precisamos considerar a história da prisão como uma instituição colonizadora profundamente ligada à era mais inicial de imperialismo para compreender a facilidade com que novos modelos de aprisionamento desenvolvidos nos Estados Unidos - como a supermax (superfacilidade de segurança máxima) - são difundidos hoje pelo mundo. Você não se lembra de como ficamos surpresas quando soubemos que uma companhia (Corporação de Correções da América) sediada em Nashville, Tennessee, é dona e operadora da maior prisão feminina na Austrália?

GINA: E que os australianos brancos, orgulhosos de uma descendência de condenados, não relacionaram essa história automaticamente às problemáticas circunstâncias contemporâneas dos prisioneiros de hoje, cuja esmagadora maioria é de mulheres Koori, isto é, aborígines, que, embora sendo aproximadamente 2% da população total da Austrália, constituem 30% da população da prisão.

ANGELA: Se eu fosse tentar sintetizar as minhas impressões das visitas às prisões ao redor do mundo, e na sua maioria foram visitas a prisões femininas, incluindo três penitenciárias que visitei involuntariamente, teria de dizer que elas são sinistramente parecidas. Sempre me senti como se estivesse no mesmo lugar. Não importa o quão longe eu viajasse através do tempo e do espaço - de 1970 a 2000, e da Casa de Detenção feminina em Nova Iorque (onde eu mesma estive presa) até a prisão feminina em Brasília, Brasil -, não importa a distância, existe uma estranha similaridade nas prisões em geral, e especialmente nas prisões femininas. Essa mesmice das prisões femininas precisa ser avaliada com relação ao quanto é importante para os feminismos desvencilharem-se da noção de que há uma qualidade universal que podemos chamar de mulher. Isso me faz pensar no seu trabalho sobre o desafio de repensarmos as fronteiras entre as ciências sociais e as humanidades, como um meio de reflexão específica sobre as mulheres nas prisões.

GINA: Sim, acho que nosso trabalho colaborativo também contesta a hegemonia das ciências sociais na produção de conhecimento sobre a prisão - não só nos espaços mais óbvios, mas também no ativismo e na cultura popular. As premissas existentes nessas esferas supostamente separadas são notavelmente coerentes e mutuamente constitutivas. O conhecimento nunca é obtido apenas para ser usado de um só lado da divisão entre a ciência e o real da vida social. Sempre me surpreendo com o grau em que acadêmicos, ativistas e praticantes da lei formam suas conjeturas a partir não só de suas experiências pessoais, mas também a partir da experiência da cultura popular como fonte de entendimento equiparada a suas próprias vidas (isso quando já não são advindos de outros saberes acadêmicos). Quando esses entendimentos são insuficientes, em geral aceitamos que eles podem ser tratados através de fatos. Mas que processo origina esses fatos? Então somos forçadas a pensar seriamente sobre o status dos paradigmas tradicionais das ciências sociais (e suas permeabilidades em vários tipos de arenas) como os mais confiáveis, evidências legítimas. Por exemplo, de que modo poderíamos produzir saberes sobre as mulheres na prisão? Como isso perturbaria o que sabemos sobre as condições ocultas de aprisionamento (a que só o Estado permite acesso) e o zelo missionário, que pode ser o sinal mais óbvio do desejo de saber sobre a prisão e as prisioneiras? Como poderíamos utilizar o conhecimento produzido sob essas condições? Não se trata apenas de como devemos repensar o conhecimento, mas de como repensar uma política abolicionista que se inicie a partir da posição inferior dessas mulheres com relação ao capital, mas que não as aprisione em outra categoria.

ANGELA: Qualquer estudo convencional das ciências sociais sobre mulheres prisioneiras vai lhe apresentar uma prisioneira típica - geralmente caracterizada como 'mãe', com um nível de escolaridade relativamente baixo e que é também viciada em drogas. Nós sabemos que, quando vamos a prisões femininas em um país europeu, descobrimos - como no caso das masculinas - um número bastante desproporcional de mulheres imigrantes, cidadãs ilegais, africanas, asiáticas e latinas. Mas, como você pontuou, isso não é o suficiente. Também temos de considerar o papel que a criminologia e o estudo da punição têm tido na criação dessas impressionantes similaridades, não só nas populações, mas nos métodos de controle, modelos arquitetônicos e práticas de custódia originadas da psicologia do criminoso, que é generalizada ao redor do mundo. Em outras palavras, a instituição da prisão e seu uso discursivo produzem o tipo de prisioneiro que, por sua vez, justifica a expansão das prisões. Inclusive, o termo indústria da prisão pode se referir exatamente à produção de prisioneiros mesmo que a indústria produza lucros para um número crescente de corporações e, drenando os bens sociais de instituições como escolas e hospitais, creche e moradia, tenha um papel fundamental na produção das condições de pobreza que criam a percepção de uma necessidade de um maior número de prisões.

GINA: Isso é fundamental para que mais e mais pessoas concordem que o Complexo Industrial Carcerário endossa os problemas sociais que pretende solucionar. E temos de considerar o papel dos pesquisadores com relação a essa situação e também procurar maneiras de utilizar a história escrita da prisão para entender raça, gênero e globalização de uma nova forma.

ANGELA: Pois é. Poderíamos começar pensando sobre o modo estranho, mas previsível, com que o feminismo tem sido abraçado pelas hierarquias da custódia. A demanda por mais guardas e oficiais femininas de alto nível tem sido complementada pela demanda em tratar da mesma forma prisioneiras e prisioneiros. Isso tem ocorrido à medida que departamentos de correção vão descobrindo que através da 'administração da diversidade' - incorporando homens de cor e mulheres de todas as raças - suas prisões se tornam mais eficientes. Desse modo, posições supostamente feministas apoiaram a tendência rumo a práticas mais repressivas de aprisionamento para mulheres e, especificamente, a transformação de modelos arquitetônicos de cabanas/campus para as fortalezas de concreto que estão sendo construídas hoje. Um exemplo interessante desse feminismo que demanda igualdade formal entre prisioneiros e prisioneiras é a insistência de alguns administradores de presídio de que as prisioneiras têm o direito de ser consideradas tão perigosas quanto os homens. Tekla Miller, ex-diretora da prisão feminina de Huron Valley, em Michigan, reclamou que o arsenal na prisão feminina era inferior ao das prisões masculinas, fazendo até mesmo um bem-sucedido lobby para o direito de atirar em prisioneiras que escapam.

GINA: E nós sabemos que essas novas receitas de igualdade - parte do legado da conjunção entre capitalismo e democracia - viajam como um proeminente produto americano de exportação. Parece que voltamos à questão de que as prisões têm se transformado não só em um terreno para o nosso ativismo, mas também em um desafio ao nosso trabalho como intelectuais feministas que tentam refletir sobre os limites dos feminismos e o terreno de novas lutas. Podemos discutir, por exemplo, as distinções entre uma igualdade da semelhança e uma igualdade da diferença, mas por que não uma teoria incorporada que também considere o agenciamento? Estou pensando nos dois paradoxos que continuam a nos perseguir. O primeiro deles é a incomensurabilidade de mulheres e prisões, e o conseqüente uso simbólico de mulheres como o excesso da prisão. A imagem da mulher parindo, amarrada em correntes, na campanha da Anistia Internacional, é só um exemplo. E se colocássemos essa imagem em confronto com um segundo exemplo? Sabemos que, na Califórnia, uma nascente 'proteção' a mulheres é que nenhuma relação sexual entre prisioneiras e guardas será considerada consensual. A história das resistências à subordinação de mulheres na prisão também nos reprime, visto que pressupõe que essas mulheres não são agentes. Conhecemos um modo de repensar isso através do feminismo. Suas referências aos escritos de Barbara Saunders na prisão,6 que comparam a vida na prisão a um relacionamento doméstico violento - nunca se sabe bem o que pode acontecer e o que vai exigir de você emocionalmente -, são de grande ajuda nesse aspecto. Se o modo de agenciamento contra a violência doméstica é sair da relação, sabemos que as mulheres nas prisões nos apresentam um novo desafio. E isso, é claro, é a principal razão para a Resistência Crítica ter encampado a campanha da 'Semana na Prisão' para celebrar o trigésimo quinto aniversário dos Direitos Civis. Visitar prisões - não apenas para obter informações como pesquisadores ou turistas, mas para trabalhar com prisioneiras - ajuda a criar uma base mais firme para um trabalho futuro. Isso também sugere que precisamos ser capazes de falar sobre como alguns homens estão, também, nessa relação de violência doméstica. Saber quem são esses homens - nos termos de classe social, raça e espaço - importa, então, de um modo diferente..

ANGELA: Bem, sabemos que a estrutura de gênero em prisões masculinas equipara violência com masculinidade e que não só a violência é esperada, mas a violência da instituição produz as relações entre prisioneiros e guardas e dos prisioneiros entre si. Como vimos em nossa visita à Prisão Estadual Calipatria, na Califórnia - e este é o caso em outros estados também -, um sistema de classificação e separação racial proíbe prisioneiros negros de dividirem celas com prisioneiros brancos ou chicanos ("hispânicos do norte" no vocabulário oficial), mas permite que eles sejam trancafiados com prisioneiros mexicanos ("hispânicos do sul"). Essa rígida segregação produz inevitavelmente conflitos violentos ao longo das linhas raciais. Esse gendramento histórico do contato racial em prisões femininas é atravessado por políticas que controlam o contato sexual. Estelle Freedman7 destaca que políticas históricas de segregação racial, na Prisão Feminina de Bedford Hills, em Nova Iorque (a qual, é claro, continua operando e trancafiando presas políticas como Kathy Boudin), envolviam regras contra a integração racial da população carcerária para prevenir relações lésbicas inter-raciais. Enquanto o sexo contido nas mesmas raças era tolerado, sexo entre raças era tratado como uma grande ameaça.

GINA: Sim, e é por isso que é importante pensar sobre a prisão: não só por causa de suas muito genuínas preocupações por quem é encarcerado, mas também pelo seu potencial em revelar a organização das estruturas que consideramos democráticas, e pelas suas ligações com o gênero e a globalização. Falávamos no passado, por exemplo, e no contexto da história dos Estados Unidos sobre a miscigenação como uma ameaça que é legitimada não só através de uma heteronormatividade prescrita racialmente, mas também através da suposição de que o lugar da reprodução - a criança de 'raça mista' - é o lugar do medo. As prisões nos ensinam que essa análise é insuficiente. Talvez o lugar mais reverberante de medo seja a reprodução de um mundo social que seria interpretado através das e ao revés das fronteiras de nações-Estados, raças, gêneros e sexualidades - a solidariedade que é produzida e controlada na prisão. Não é este precisamente o lugar da resistência crítica da qual falamos?

Diálogo publicado originalmente em Signs: Journal of Women in Culture and Society, v. 26, n. 4, 2001. p. 1235-1241. Esse diálogo ocorreu em Oakland, Califórnia, em 4 de novembro de 2000. Traduzido e publicado com permissão das autoras e da University of Chicago Press. 1 Informações extraídas dos sites http://www.speakersandartists.org/People/AngelaDavis.html e http://humwww.ucsc.edu/HistCon/facukty_davis.htm em 20 de agosto de 2003. 2 Informações extraídas do site http://www.ucsc.edu/currents/02-03/10-28/newfac.html em 20 de agosto de 2003. 3 Os outros membros do grupo de pesquisa da University of California Humanities Research Institute são Ruth Wilson Gilmore (Berkeley), David Goldberg (Irvine), Avery Gordon (Santa Barbara), Sandra Baringer (Riverside) e Nancy Scheper-Hughes (Berkeley). 4 Rosa LUXEMBURG, 1999. 5 Alexis de TOCQUEVILLE, 1990 (1835). Gustave BEAUMONT DE LA BONNINIÈRE e TOCQUEVILLE, 1964 (1833), e Seymour DRESCHER, 1968, incluem trabalhos que antecedem TOCQUEVILLE, 1990 (1835). 6 Citada em Bell Galé CHEVIGNY, 1999, p. xvii. 7 FREEDMAN, 1981.

Angela Davis segue viva, com 71 anos, seus escritos feministas são lidos por milhares de mulheres negras, na maioria jovens de todas as Américas e da África. Entre as socializadas como brancas, (cf. Davis, 1981). Ainda seguimos a crer que a luta pelos direitos das mulheres teve início com as sufragistas. Ledo engano.

Mulheres negras sempre trabalharam. O trabalho precário segue com elas até os dias de hoje. Seguramente, falar de liberdade e direitos das mulheres – e, por consequência, feminismo – só é potente quando agregado às questões raciais e de classe social.

Busco nos escritos de Davis o que ela diz sobre os afrodescendentes daquele país:

Através do forçado sistema de arrendamento, o povo negro foi obrigado a realizar os mesmos papéis executados por eles próprios na escravatura. Homens e mulheres foram detidos ou presos, ao menor pretexto, a fim de serem alugados pelas autoridades como trabalhadores condenados. Enquanto os donos de escravos reconheceram os limites da crueldade com a qual eles exploravam a sua "valiosa" propriedade humana, essas cautelas não eram necessárias para os plantadores do pós-guerra que alugavam os negros condenados por relativamente pequenos prazos (Davis, 2013: 68).

Ao lado de Davis, tanto esquerdo quanto direto, duas mulheres brancas. À esquerda, Gilda, numa foto arrancada de um álbum de família onde está escrito "Berkeley 1975". Seguramente, anos depois de ter se encontrado com Angela no comício, Gilda se casou e teve um filho. À direita, Rebecca, antes mencionada. Certamente, as duas mulheres – Gilda e Rebecca – já deviam ter encontrado mulheres negras trabalhando em situações de trabalho doméstico. A voz de Angela Davis volta a falar:

Se as mulheres brancas aceitavam o trabalho doméstico, apenas se não encontrassem nada melhor, as mulheres negras estavam aprisionadas nessa ocupação até ao advento da Segunda Guerra Mundial (Davis, 2013: 71).

A desigualdade entre mulheres é latente até hoje. Na própria exposição de André Penteado há uma imagem de uma mulher negra prestando serviços domésticos com um pano branco na mão, por exemplo. Até hoje mulheres negras seguem a receber salários inferiores às mulheres brancas. Os anos 1970 foram importantes para a luta racial e feminista tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Na América Latina, as mulheres de esquerda pegavam em armas. As feministas negras são categóricas ao falar de feminismo:

As mulheres brancas que dominam o discurso feminista – as quais, na maior parte, fazem e formulam a teoria feminista – têm pouca ou nenhuma compreensão da supremacia branca como estratégia, do impacto psicológico da classe, de sua condição política dentro de um Estado racista, sexista e capitalista (Hooks, 2015: 196).

As questões raciais são aprofundadas e tornam-se complexas quando unidas às de gênero e classe social, pontua Bell Hooks, outra teórica feminista afro-americana. Volto à Davis, que fala das mesmas questões, e, por meio de Davis e Hooks, reencontro Sueli Carneiro, uma das mais importantes pensadoras brasileiras:

Quando falamos do mito da fragilidade feminina, que justificou historicamente a proteção paternalista dos homens sobre as mulheres, de que mulheres estamos falando? Nós, mulheres negras, fazemos parte de um contingente de mulheres, provavelmente majoritário, que nunca reconheceram em si mesmas esse mito, porque nunca fomos tratadas como frágeis. Fazemos parte de um contingente de mulheres que trabalharam durante séculos como escravas nas lavouras ou nas ruas, como vendedoras, quituteiras, prostitutas... Mulheres que não entenderam nada quando as feministas disseram que as mulheres deveriam ganhar as ruas e trabalhar! (Carneiro, 2003: 1).

A voz da brasileira se soma a todas as outras e também às imagens que compõem o projeto de Penteado. "As imagens são atos, memórias, questionamentos (...) visões e prefigurações" (Samain, 2011: 40).

Depois do encontro de tantas vozes falantes em um único trecho da lâmina do atlas, volto ao projeto de André Penteado como um todo, volto às suas perguntas primordiais e me indago: Como reconstruir o porvir ou mesmo falar das imagens que herdamos, incluindo o questionamento de nossos lugares de privilégios como mulheres e homens brancos?

1Ao lado da autobiografia de Angela Davis, publicada originalmente em 1974. O livro de Bettina Aptheker The morning breaks (1999) que traz a transcrição das referidas cartas; assim como o livro de cartas de George Jackson (1994) enviadas da Soledad Prison também foram fontes importantes para situar o acontecimento nas trajetórias dos dois e no contexto histórico do julgamento, e serão objeto de futura investigação.

2Fala do filme Free Angela Davis and all political prisoners (2012) dirigido por Shola Lynch. Tradução minha, no original: “you couldn’t have put things together with anyone that would’ve been more problem-creating, than Angela Davis”.

3Tradução no original: “The evidence will show that the claim of political persecution, the claim of political persecution, the claim that the defendant is a political prisoner, the claim that the defendant is the subject of prosecution because of her political beliefs- all of these claims are false and without foundation”

4Tradução no original: “(…) It was not founded on a desire for social justice. It was founded simply on the passion what she felt for George Jackson"

5Tradução no original: “Her own words will reveal that beneath the cool academic veneer is a woman full of culpable of being moved to violence by passion”

6Tradução no original: “Harris had attempted to work up the jury with an absurd theory of my having been impelled to commit murder, kidnapping and conspiracy by my ‘boundless and all consuming passion’ for George. By purging his case of the original political accusations, the prosecutor thought he was being shrewd.

7Tradução, no original: “a single Black women successfully fended off the repressive might of the state".

8Tradução, no original: “of my having been impelled to commit murder, kidnapping and conspiracy by my ‘boundless and all-consuming passion’ for George”.

9Tradução, no original: “The only extraordinary event of my life had nothing to do with me as individual- with a little twist of history, another sister or brother could have easily become the political prisoner whom millions of people from throughout the world recued from persecution and death”.

10Tradução, no original: “I had always thought it was fortuitous that I was among those who had escaped the worst. One small twist of fate and I might drowned in the muck of poverty and disease and illiteracy. That is why I never felt I had the right to look upon myself as being different from my sisters and brothers who did all the suffering, for all of us”.

11Tradução, no original: “When faced with this structural injustice targeted toward the group, many Black women have insisted on our right to define our own reality, establish our own identities, and name our history”.

12Um segundo movimento de pesquisa, que passo a desenvolver como continuidade deste trabalho, terá como objeto a construção da verdade jurídica no processo criminal. Partindo de outra proposta analítico-metodológica pretendo compreender os códigos do arquivo com o qual Angela dialoga e os enquadramentos que ele produz. Parto do contra-arquivo para conhecer o arquivo, para então pensar em como essas epistemes se compõem.

13Tradução, no original: “Magge’s prison life began when he was 16, about the same age Miss Davis, the daughter as a middle class Family, earned a scholarship to Brandeis University...In the years that Miss Davis followed a college career that took her to Europe and finally to the University of California at San Diego to study her Ph.D under Herbert Marcuse, Magee studied law books in the cell.”

14Tradução, no original: “never harbor or express the desire to be white. This promise that I made to myself did nothing, however, to drive away wishdreams that filled my head whenever my desires collided with taboo. So, in order that my daydreams not contradict my principles, I constructed a fantasy in which I would slip on a white face and go unceremoniously into the theater or amusement park or wherever I wanted to go. After thoroughly enjoying the activity, I would make a dramatic, grandstand appearance before the white racists and with a sweeping gesture, rip off the White face, laugh wildly and call them all fools.”

15“Jim Crow shop” em referencia as leis de Jim Crow que institucionalizaram a segregação racial nos Estados Unidos de 1876 e 1965.

16Tradução, no original: “At the sight of two young Black women speaking a foreign language, the clerks in the store raced to help us. Their delight with the exotic was enough to completely, if temporarily, dispel their normal disdain for Black people”.

17Tradução, no original: “All Black people have to do is pretend they come from another country, and you treat us like dignitaries”.

18Seu idealizador, Frank Lloyd Wright quis representar a natureza da justiça nos Estados Unidos: em um julgamento, os participantes não deveriam ficar lutando um contra o outro, ao contrário, eles estariam de mãos dadas em volta do círculo na busca comum por justiça (DAVIS, 2013, 287). Contudo, para Angela, a “justiça em circulo” parecia atender o propósito de quebrar a aliança entre ela e seu co-réu Ruchell Magee ao colocá-los longe um do outro (DAVIS, 2013, 292). Ao mesmo tempo, esse formato arquitetônico deixou Angela, literalmente, no centro da cena da justiça

Palavras-chave: tradução; diáspora negra; mulheres, raça e classe

2 visualizações

Telefone e WhatsApp: (011) 3082-8888

portal@conewsnity.com

Av. Dr. Cardoso De Melo, 1855, Bloco 1, Conj. 52
Vila Olímpia, São Paulo, SP, CEP 04548-903, Brasil

 

conewsnity.com   |  CNPJ: 35.692.132/0001-06

WhatsApp Conewsnity
Ouça a pronúncia "Conewsnity"
  • Linkedin | Conewsnity Portal
  • Instagram | Conewsnity Portal
  • Facebook | Conewsnity Portal
  • Twitter | Conewsnity Portal
  • YouTube | Conewsnity Portal

Somos a única agência de marketing digital no mundo que possui o próprio portal colaborativo de notícias que entrevista especialistas de diversas áreas e publica informação de utilidade pública e entretenimento.

 

Se você conhece o fato, tem a notícia. Publique